Jesus Cristo – domínio público ou Privado?

Por: José Lucas – Jornalista.

Na madrugada do último dia 24 de Dezembro, véspera de Natal, a sede da produtora do programa de humor Porta dos Fundos da Netflix, localizada na zona sul do Rio de Janeiro, foi alvo de um ataque com bombas caseiras após a exibição do especial de Natal do humorístico, em que Jesus teria uma experiência homoafetiva durante a penitência dos 40 dias no deserto. Esse episódio seria intitulado A Primeira Tentação de Cristo.

Neste atual cenário do país, vêm crescendo a ação de grupos neofascistas e de extrema-direita que defendem o integralismo e “conceitos morais” na sociedade brasileira. O fato do programa de representar Jesus como gay (já que a população LGBT é a mais perseguida por esse grupo e morre com frequência no Brasil devido ao preconceito) incitou a ira desses grupos e de também da parcela da população que defende a política discriminatória e de fundamentalismo religioso do governo Bolsonaro. Vivemos numa sociedade em que a liberdade de expressão deveria ser um direito inviolável e defendido pelo Estado, e não contrário.

Se analisarmos a história recente da cultura e das artes, a vida de Cristo, por mais conhecida que seja, ela tem recebido novas interpretações e abordagens por parte de escritores, pintores e cineastas. Afinal, Jesus Cristo é o personagem mais importante de toda a história do mundo ocidental, não é a toa que sua vida como homem na terra inspire os criadores de conteúdo artístico, que nem sempre se apegam às referências bíblicas. Isso explica que a figura divinal de Jesus seja de domínio público. Não é algo intocável ou proibido de ser reproduzido. Se assim fosse, não haveriam tantas encenações de Paixão de Cristo.

No fim de 2019, há todo esse alvoroço com a figura de um Cristo Gay. Em 1988, a Igreja Católica se escandalizou com o filme “A Última Tentação de Cristo” de Martin Scorsese, em que Jesus se casa com Maria Madalena. E olha que estamos falando de um Jesus hétero.  Nessa obra, vemos a ousadia de se lançar ao público a imagem de um Jesus humano, carnal, neurótico, repleto de dúvidas.

E se você se deparasse com um Jesus rebelde, como o que foi reproduzido em “Jesus Cristo Super Star”, que confronta os desígnios de seu Pai. Ou se ele fosse um Palhaço? Certamente, os evangélicos mais severos fariam campanha contra o Musical Godspell, de 1973, em que Cristo comandava uma trupe teatral, dançando e cantando como se isso não fosse coisa de Messias. A classe negra se sentiu representada ao ver o ator Maurício Gonçalves interpretar o papel no Auto da Compadecida, baseada na obra de Ariano Suassuna, mostrando que no mormaço do sertão, não faria sentido um Jesus de pele clara.

Hoje criticamos a liberdade de expressar uma nova face do Cristo. Mas como não se chocar ao ver um Cristo ser esquartejado e brutalmente agredido e morto na obra de Mel Gibson “A Paixão de Cristo” em 2004? Mesmo que tenha um propósito divino, será que não é um desrespeito à figura santa e imaculada de Cristo vê-lo jorrar tanto sangue e rasgar tanta carne? De fato, literal ou livre, a figura de Jesus é sim de domínio público e não de somente de algumas religiões. Era para ser engraçado. Mas não foi esse o objetivo-fim do programa Porta dos Fundos. Temos consciência da postura política dos artistas que produzem o programa, do lado oposto aos que defendem o conservadorismo extremo em todas as esferas sociais. Mas cabe aqui a reflexão de qual lado estaremos: da liberdade de expressão ou da preservação de antigas morais?

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