Ziriguidum no Século XXI – Parte II

(2005-2009): A Era Fria da Folia

Seguindo a trajetória do carnaval ao longo dos últimos vinte anos, entramos na fase mais fria e menos marcante do desfile das escolas de samba do grupo especial, em que o espetáculo ficou por conta das loucuras de Paulo Barros, que desfiles bonitos se viu mais em Nilópolis e sobrou polêmicas e mais polêmicas ao longo da fase que deveria ser das mais prósperas.

Paulo Barros e Suas Estripulias

Terminei o primeiro post desta série lembrando a estréia triunfal de Paulo Barros no grupo especial com o marcante carro do DNA. Depois de 2004, aos poucos Paulo foi soltando sua ousadia. Em 2005, fez um desfile ainda melhor na Unidos da Tijuca sobre a imaginação humana, com direito a um carro abre-alas com a mesma presença humana, realizando coreografias, alas também coreografadas, enredos que mais parecem temas, carros feitos com materiais reciclados e citações ao cinema. E mais importante: fazendo carnaval interagindo com o público, atraindo atenção popular com esse aspecto show em seus desfiles.  Nesse ano ficou a um décimo atrás da Beija-Flor. Já em 2006, mesmo com esses mesmos elementos, alcançou somente o sexto lugar.

Seu talento despertou interesse na Unidos do Viradouro. Em 2007, criou-se uma rivalidade entre a ex e a atual agremiação. Para vencer esse jogo particular, desenvolveu um desfile justamente sobre os jogos e até colocou a bateria do também ousado Mestre Ciça em cima de um carro alegórico. Mesmo com um desfile ainda mais ousado, a Viradouro ficou uma posição atrás da Unidos da Tijuca, que manteve o estilo Paulo Barros em seu desfile sobre a história da fotografia, marcada pelo assustador abre-alas com uma enorme escultura de diabo que, por sinal, pegou fogo no desfile das campeãs.

Sua passagem pela Viradouro terminaria rapidamente em 2008, após o problemático desfile sobre arrepio, marcado pela proibição do carro que remetia ao holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial que precisou ser modificado dias antes do desfile. A escola ficou só com o sétimo lugar.

O Rolo Compressor chamado Beija-Flor

a Beija-Flor viveu o auge de seus grandes desfiles, mostrando força e competência no canto e na evolução, méritos de uma comunidade muito bem ensaiada, correção e profundidade no desenvolvimento do enredo e desfiles altamente luxuosos. Assim, em 2005, a escola alcançou o tricampeonato com um dos primeiros sambas que me marcaram cujo refrão era: “Em Nome do Pai, do Filho, a Beija-Flor é Guarani (…)” sobre os Sete Povos das Missões, em Rio Grande do Sul. Em 2006, ficou só em quinto lugar.

Mas parece que esse único ano sem título, deu fôlego para os nilopolitanos fazerem seu melhor desfile em 2007, num título incontestável, exaltando a África (enredo que cai muito bem à escola), com muita grandiosidade, e foi bicampeã em 2008 com um enredo sobre Macapá. Em ambos os desfiles, a escola esbanjou luxo, grandiosidade e correção em praticamente todos os quesitos. Isso evidenciou a larga supremacia da Beija-Flor sobre as demais concorrentes.

Ainda em 2008, o intérprete Neguinho da Beija-Flor enfrentava e vencia a batalha contra um câncer no intestino. Para celebrar esse momento pessoal, antes de entrar na avenida, o puxador se casou com Eliane Reis. Depois, entoou o samba para o enredo sobre a história do banho, com mais um desfile perfeito, que mereceria o título para fazer o Tri-Tri da Década (2003 a 2005 e 2007 a 2009). Isso, Salgueiro não tivesse feito um desfile ainda melhor e tomado o caneco do pássaro de Nilópolis.

A Vitória Salgueirense e a Fase Ruim das Grandes Escolas

O Salgueiro quebrou um jejum de 16 anos sem títulos desde o histórico Peguei um Ita no Norte de 1993. O título de 2009 com um enredo sobre a história do tambor, também quebrou o jejum de títulos do carnavalesco Renato Lage, que não era campeão desde 1996, com a Mocidade. Antes disso, Ele e o Salgueiro vinham de uma fase não muito favorável. Em 2006, quando todas as escolas entravam no sorteio, o Salgueiro deu o azar de abrir a primeira noite de desfiles, pegando o público ainda frio. Graças a isso e a um enredo ruim sobre os microorganismos, a escola obteve a pior colocação da história, 11o lugar. A recuperação parecia vir no ano seguinte com um enredo afro, que também é muito tradicional na sua gloriosa história. Candaces, enredo sobre as rainhas africanas, resultou num visual rico e grandioso que poderia bater de frente com a África da Beija-Flor. Inexplicavelmente, os jurados jogaram o Salgueiro para a 7o colocação.

Em 2008, parece que o júri quis se redimir e deu o vice-campeonato para o Salgueiro, mesmo o desfile não ter sido tão qualificável comparado com outras escolas como Portela e Tijuca.  Até que em 2009 a escola fez um desfile tecnicamente perfeito e, principalmente, vibrante, que empolgou o público do início ao fim, algo que não ocorreu com frequência nessa década.

O Salgueiro conseguiu se recuperar nesse período. Outras escolas, passaram por um verdadeiro calvário sem fim.

Portela: 2005 foi um ano para esquecer. A escola optou por um enredo patrocinado pela ONU sobre as 8 metas para mudar o mundo. Só que em meio a uma crise política gravíssima e a escolha de um samba muito ruim, mas muito ruim, o desfile de 2005 foi uma tragédia. O símbolo da escola, a águia, estava toda desfigurada, devido a um incêndio logo na concentração. E outro símbolo portelense, a velha guarda, sequer desfilou pois o último carro que os levava ficou na concentração devido a falta de gasolina, e os dirigentes impediram que o carro entrasse na pista, para não ultrapassar o tempo-limite que era de 80 minutos. Um completo desrespeito às maiores entidades da Portela. Na apuração, ficou em penúltimo lugar. A escola demorou a conquistar o respeito popular e a força que a fizeram ser 21 vezes campeã.  A recuperação veio em 2008, desenvolvido por Cahê Rodrigues que rendeu o quarto lugar.

Mangueira: A escola também desrespeitou um grande símbolo da sua história. Em 2007, a cantora Beth Carvalho foi expulsa de desfilar no carro que levava os baluartes, pois para aos que estavam ali, Beth ainda não era baluarte. Sem condições de saúde para desfilar no chão, a madrinha do samba, ficou na concentração aos prantos e ficaria sem desfilar pela escola por alguns anos. Essa confusão dava início à fase ruim da escola, que teve como principal motivo, o envolvimento do então presidente Percival Pires e de um dos compositores do samba vencedor do carnaval de 2008 com traficantes. Teve até operação policial investigando esse caso. 2008 marcava o centenário do compositor Cartola, um dos fundadores da Mangueira, em 1928. Porém, a escola preferiu fazer enredo sobre o centenário do frevo, patrocinado pelo governo de Pernambuco. Por não honrar com suas tradições e no meio de uma crise institucional, a Mangueira amargava o décimo lugar, pior colocação da década, e culminou na saída do carnavalesco Max Lopes, responsável pelo bom desempenho da Manga nessa década. Já o cantor Jamelão, por problemas de saúde, já não cantava na escola desde 2006, seu último desfile. Em junho de 2008, ele viria a falecer aos 95 anos por falência múltipla dos órgãos, deixando toda uma comunidade órfã da voz oficial da Mangueira por mais de cinqüenta carnavais.

Imperatriz: Até 2005, a escola de ramos estava acostumada a brigar nas primeiras colocações. Nesse ano, Rosa Magalhães fez, pelo menos para mim, um dos melhores trabalhos da carreira, com enredo sobre a literatura infantil de Hans Christen Andersen. Porém, depois de um desfile bem simplório, numa posição de desfile complicada (terceira de domingo), em 2006, a escola fez um desfile ainda pior em 2007, num enredo esquisito sobre o bacalhau. Patrocinado pelo governo da Noruega, Rosa fez seu pior trabalho, de carros de concepção esquisita e um desfile mais frio do que a geleira no segundo carro da escola. O nono lugar ficou barato. Merecia a queda E em 2008, se recuperou, voltando a fazer enredo histórico sobre as Marias da corte de D. João VI. Porém, no ano do cinqüentenário, a Imperatriz foi uma das que mais sofreu com a crise econômica mundial e a professora Rosa, acostumada a trabalhar com pujança financeira, teve que quebrar a cuca para desenvolver esse desfile-exaltação em 2009. Por sinal, esse foi o último de 17 carnavais de Rosa na Imperatriz, conquistando 5 campeonatos ao longo dessa última passagem.

Império Serrano:O Meu Império é Raiz, Herança (…)” esses são versos do samba composto por Arlindo Cruz para a Serrinha do carnaval de 2006, para o enredo “O Império do Divino”, de Paulo Menezes. Quem assistiu a esse desfile valente, acreditou que era o início da ressurreição imperiana na elite do carnaval.  Porém, em 2007, ano em que comemorava seus 60 anos, o Império Serrano fez uma péssima exibição num desfile que falava sobre aqueles que faziam a diferença mesmo sendo diferentes. Reza a lenda que o carnavalesco Paulo Menezes se recusou a desenvolver esse enredo e pediu para sair. O ainda desconhecido Jack Vasconcelos assumiu a encrenca, mas não conseguiu salvar o Império de mais um descenso. Em 2008, foi campeão do acesso graças ao um excelente trabalho da carnavalesca Márcia Lage no centenário de Carmem Miranda. Mas não conseguiu permanecer na elite em 2009, numa ferrenha disputa com a Mocidade. A escola ficaria longos 9 anos no grupo de acesso.

Mocidade: Por falar em Mocidade, essa sim, viveu a pior que se arrastou na década seguinte. Em 2006, no enredo que deveria exaltar os 50 anos de sua história, a narrativa foi misturada com mensagens sobre qualidade de vida devido ao patrocinador do desfile – 10o lugar; em 2007, a escola ficou uma posição abaixo, o que a faria, pelo regulamento, ter de abrir os desfiles de segunda-feira. Mas em 2009 a crise foi muito pior. Além de sofrer com a falta de recursos, o desenvolvimento do enredo sobre Machado de Assis e Guimarães Rosa foi extremamente confuso e mal concebido. Salvou-se só a bateria da escola elogiada até pelo presidente Lula que assistia aos desfiles de domingo naquele ano. Se não fosse isso, o rebaixamento seria coerente.

Falta de Inovação na Elite do Carnaval

Em 2006, a LIESA decidiu reduzir o número de escolas participantes do grupo especial, de 14 para 12 escolas, com a queda e ascensão de uma escola. Particularmente, acho melhor quatorze escolas com duas caindo e duas subindo, como é no grupo especial de São Paulo. Mas esperar o quê da liga?.

Isso dificultava e muito a permanência da escola que subia do acesso. Nesse período, só a Vila Isabel em 2005 conseguiu ficar na elite. É bom lembrar que graças ao sorteio mais democrático, a Vila encerrou a noite de domingo, o que não a torna propensa à queda. Nos anos seguintes, as escolas Rocinha (2006), Estácio de Sá (2007), São Clemente (2008) e Império Serrano (2009) subiram e caíram no mesmo ano. Nesse mesmo período, Tradição e Caprichosos de Pilares, que viviam perto da zona de risco, caíram e nunca mais voltaram ao especial.  Assim, pouca coisa mudava no grupo especial.

Já que falei na Vila Isabel, essa foi a última escola do carnavalesco Joãosinho Trinta, que teve que deixar a escola no meio do processo do carnaval de 2005 por conta do agravamento do estado de saúde do artista. Um ano depois, ele fazia uma passagem simbólica antes da comissão de frente. Foi nesse ano que a escola alcançou um título surpreendente e inesperado, afinal, a escola não estava cotada entre as favoritas e fez uma exibição muito valente no enredo sobre a latinidade. O título não seria da escola de Noel se a Grande Rio não estivesse estourado em 1 minuto o tempo do desfile e ter perdido dois décimos na apuração. As duas escolas terminaram empatadas, mas no desempate a Vila levou a melhor. Aquele dois décimos fizeram muita falta para a escola de Caxias que sonha com o primeiro campeonato.

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